Não existe educação sem cultura

Um mergulho na obra de Nelson Rodrigues

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Provocações como “toda unanimidade é burra”, “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais” ou “é preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata” retratam bem o estilo de um dos mais importantes escritores brasileiros: Nelson Rodrigues. Autor de 17 peças teatrais, ele foi um dramaturgo muito influente. Na verdade, ainda é. Prova disso é que estudar Nelson Rodrigues virou obrigação para qualquer ator. E o professor de interpretação da primeira oficina de atores da Cesgranrio, Márcio Fonseca, fez questão de trabalhar o autor com seus alunos.

“Nelson tem uma coisa muito notória, trabalha com paixão, traz o trágico e o sublime, mexe com os sentimentos mais escondidos em nossa alma. Para o ator, é fundamental testar limites e propor desafios”, resume o professor. Ele propôs que os alunos se dividissem em casais para interpretar dois grandes personagens de Nelson Rodrigues: “Aurora e Bibelô”. O trabalho durou quase duas semanas.

Para incorporar o cafajeste Bibelô, o ator Betto Marque entrou no clima e deixou até o bigode crescer: “É uma estratégia de aproximação do personagem. Cada detalhe é importante. Dá um entendimento de quem ele é”. Betto conta como foi “engraçada” a reação das pessoas nas ruas diante de sua nova imagem. “Percebi mais olhares do que antes. Não sei se por causa do bigode ou da energia do personagem”, brinca.

O trabalho dos atores foi bastante elogiado pelo professor Márcio Fonseca, que afirmou ter ficado muito satisfeito” com o resultado. Ele destacou como “foi bom ver os mesmos personagens sendo interpretados de maneiras diferentes ”. Um dos casais mais aplaudidos nas aulas foi Eli Ferreira e Gustavo Almeida. “No início foi difícil. Sou muito nova e tive que fazer uma mulher mais velha e sensual, sem parecer vulgar. Mas, acabei me surpreendendo”, diz Eli. O colega completou, destacando a dificuldade: “A primeira apresentação foi horrível. Só decorei o texto. Só depois comecei a construir o personagem”. Talvez o sucesso da interpretação da Aurora de Eli e do Bibelô de Gustavo está no que o professor Márcio Fonseca considera básico: “se divertir em cena”. E os dois garantiram: “Nos divertimos muito.”

nelson rodrigues

Fazendo referência à frase do próprio Nelson de que “Deus está nas coincidências”, coincidentemente a aluna da oficina Agatha Duarte está em cartaz com a peça “Bonitinha, mas ordinária”, também do escritor. A atriz confessa que após as aulas, “mudou muito a forma de interpretar”. “O que o Márcio fala do subtexto me deu mais respaldo para o personagem. Ficar apenas no presente, sem adiantar as reações por conhecer as história, é sempre um desafio”, diz Agatha.