Não existe educação sem cultura

Entrevista com a Prof.ª Fernanda Guimarães

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Formando atores e transformando pessoas. Professora Fernanda Guimarães conta sobre o trabalho de preparação corporal.

Basta pouco tempo conversando com ela ou assistindo sua aula na oficina de atores da Cesgranrio, para perceber como Fernanda Guimarães, mais conhecida como Fê, é uma professora especial. Há mais de dez anos, preparando atores através de aulas de corpo, ela confessa que” se apaixonou pela área ao ver que poderia transformar as pessoas”. Como a maioria dos atores, Fernanda Guimarães tem outra formação: turismo.

Bem ao seu doce estilo, justifica; “quis dar tranquilidade ao meu pai, que me sugeriu uma carreira mais estável”.

Com o diploma na mão, Fê decidiu dedicar-se exclusivamente às artes cênicas. Ela destaca “o mestre Roberto Bomtempo” por tê-la “inventado” como preparadora de atores. Em 2010, fez uma pós graduação corporal na Faculdade Angel Vianna, no Rio de Janeiro, e não parou mais.

Mas, afinal o que realmente significa o trabalho de preparador corporal? Fê ajuda a entender um pouco mais sobre essa atividade ainda recente no Brasil. Confira entrevista:

Fundação Cesgranrio: O que é uma aula de corpo?

Fernanda Guimarães: As pessoas ainda podem confundir aula de corpo, com aula de ginástica ou de dança, já que é algo recente, só chegou ao Brasil na década de 70. Na verdade serve como uma autoinvestigação para o ator. Ele passa a descobrir como acessar seus estados emocionais. Passa a ter consciência do próprio corpo.

Fundação Cesgranrio: De que forma?

Fernanda Guimarães: Existem pensadores e diretores que cuidam disso, como Rudolf Laban, Ettiene Decroux, Angel Vianna e outros. Tem um treinamento que eu uso muito, criado por Richard Schechner, chamado de Rasaboxes, onde se propicia ao ator acessar estados emocionais através de estímulos, não só memórias emotivas, como memórias corporais.

Fundação Cesgranrio: Mas, grande parte das oficinas de atores não utiliza preparação corporal.

Fernanda Guimarães: É uma pena. É na preparação corporal que o ator toma consciência do próprio corpo. É como se potencializasse as energias internas. Apesar de ser uma prática nova no Brasil, os diretores começaram a sentir necessidade de trabalhar o corpo do ator, que fica mais flexível para qualquer interpretação.

Fundação Cesgranrio: E na tv? Qual o efeito dessa preparação corporal?

Fernanda Guimarães: Como se trata de uma outra linguagem de dramaturgia, acabo direcionando alguns exercícios para isso. Por exemplo, no Rasaboxes, trabalho a questão da forma de comunicação daquela situação, daquele estado emocional, que varia de acordo com o plano de enquadramento. Como eu posso estar muito feliz e comunicar isso num close, onde só o rosto está focado? A gente aprende a fazer crescer o estado emocional apenas com poucos movimentos. Quanto mais o ator estiver imbuído de referências corporais, mais preparado estará para ser dirigido.

Fundação Cesgranrio: Depois da oficina, será que os alunos vão conseguir usar essas referências corporais, sem ajuda da professora Fê?

Fernanda Guimarães: Sim. Acredito que há histórias guardadas também nos músculos. Um dos objetivos é proporcionar essas memórias corporais. Eu posso acessar um estado de tristeza profunda se pensar na morte de um ente querido ou também se deslocar os ombros e a bacia levemente para frente. Essa simples mudança da minha estrutura esquelética pode proporcionar uma isca emocional ou o tensionamento de uma musculatura pode levar a tal estado.